martes, 6 de julio de 2010

"OS PÁSSAROS ESCONDEM-SE PARA MORRER"





óleo de Anna Gardell Ericson




Intitula-se assim, em português, uma estupenda novela de Collen McCullough, The Thorn Birds. Mas não venho falar da novela, venho falar dos pássaros.
Não faltam no vocabulário português expressões como armar aos cucos, bater a asa, estar depenado, ser pássaro de mau-agouro, ir com o grão na asa, calar o bico, ficar como um passarinho, ser ave de arribação, esconder a cabeça como a avestruz e sei lá quantas mais. E que dizer da mítica Ave Fénix que de alguma maneira todos levamos dentro para poder levantar-nos cada vez que caímos, ou desse mágico "canto do cisne", que apura toda a beleza de que é capaz antes justamente do seu silêncio definitivo.
Pode ser que um dia nos falhem os sonhos, de tanto sonhá-los, que nos falhe a vida, gastada e repetida, que nos falhem os amantes, os amigos, as esperanças; talvez nos atraiçoe o corpo velho e cansado, talvez algum dia nos falhe quase tudo, mas que nunca nos falte o canto dum passarinho a anunciar o novo dia!

Quando eu era nova, há muitos anos, o pesadelo do Ocidente era uma guerra nuclear, como pode ser hoje o terrorismo islamista, a invasão amarela, o aquecimento global ( há mais variedade...). Vi então uma curtametragem espanhola que nunca pude esquecer e permaneceu para sempre entre os meus medos mais atávicos e absurdos: tratava-se dum casal de velhinhos que tinha sobrevivido a uma guerra nuclear e aí estavam eles, na sua humilde aldeia campestre de sempre, mas rodeados de um insuportável silêncio, de um abismal silêncio que curiosamente lhes doía mais que a própria solidão: nem um canto de gorriões ou o esvoaçar duma andorinha, encontravam-se imersos e perdidos em  ¡¡ un mundo sem pássaros!!
Hoje deu-me para reflectir sobre estes maravilhosos seres alados e cantores e também sobre a sua influência na nossa linguagem quotidiana, e na quantidade de símbolos que usamos recorrendo a eles: paz - pomba; alegria - pardal; liberdade - andorinha; charlatanice - papagaio; mulher velha e feia - coruja; cantar bem - rouxinol ou canário; majestade e poderio - águia; sabedoria e nobreza - falcão; beleza e elegância - cisne; avareza - abutre; espertalhão - melro; mensageiro de má sorte - corvo; rapina - gavião; tempo - cuco; maternidade - cegonha; manhoso - passarão ....



obra de Jose Manuel Capuletti 

4 comentarios:

  1. Querida Maria!
    Adorei o seu post!
    De facto, o que seria um mundo sem pássaros?! Todos esses maravilhosos seres alados, que enumerou, e que nos trazem logo à ideia a cor das penas, os bicos, os tufos de plumas na cabeça... e nos fazem sorrir de ternura.
    Nunca pensei que havia tanta frase ligada aos passarinhos!
    Mas compreende-se: estiveram sempre junto de nós...
    Um grande beijo ...e continue!!!
    o falcão

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  2. Sim,creio que vou continuar (-com tranquilidade-),porque me está compensando escrever,pensar,sentir o que digo.É um prazer realmente,e enquanto assim fôr,adiante.
    Obrigada pelas suas palavras de ânimo—não quero repetir-me,assim que fica dito duma vez por todas...Beijinhos

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  3. Muito bonito o post, nunca tinha pensado nisto,continua...
    Carlos

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  4. Maria
    estive a ler todos os teus posts de Julho. Gostei muito de todos.
    Sabes que gosto muito da Collen McCullough? Já li alguns livros dela e tenho outros tantos para ler. O último que li dela foi "O toque de Midas". Para mim uma lindíssima história de amor.
    Também tenho cá o "Por favor não matem a cotovia". Já o comecei, mas entretanto parei para ler outros que trouxe da biblioteca e tinha que devolver, e agora quando lhe pegar vou ter que recomeçar. Mas não vai ser para já.
    Um beijinho grande.
    Hei-de ler mais coisas atrasadas.

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