sábado, 24 de julio de 2010

" PINTEI O INFINITO"






Não sou entendida em arte (nem em nada), mas quero deixar aqui escrito que a pintura de Vincent Van Gogh  me fascina desde pequena.
Foi um ser atormentado por uma vida asfixiante, pobre, doente mental, viciado com o absinto, sifilítico, desprezado por todas as mulheres que amou, duro e enormemente sensível ao mesmo tempo, carregado de angústia e de medo,  frequentador assíduo de prostitutas e bordéis, e só a pintura  o salva das trevas da loucura, só nela encontra essa luz que a vida lhe nega.

                                                  
                                                                   


Quando toca fundo, ingressado num manicómio, devastado por um demolidor cansaço, é quando Van Gogh arranca do seu interior a força necessária para romper com todos os moldes, com todas as cadeias, e consegue por fim essa pintura pessoal e única, essa claridade  redentora, que convive com essa escuridão. 





Tratar em Paris com todos os grandes impressionistas da época fê-lo crescer intelectualmente, sem dúvida, assim como o contacto com a pintura japonesa, que lhe interessou muitíssimo. Mas o talento não acontece por osmose, o que sim parece ser é que habita com mais frequência os espíritos atormentados! (Talvez isto aconteça porque as pessoas a quem a vida trata bem, se tornem mais materialistas e  acomodadiças. A cultura poderia comparar-se, toscamente, com a posse de óptimos produtos para cozinhar, e o talento, com a capacidade de fazer uma boa comida, mesmo com escassos meios. Digo eu...).
É na última época da sua curta vida que surge o talento mais criador de Van Gogh, que encontra a luz mais resplandecente  na intensidade das cores, nos contrastes   verde-azul-amarelo-vermelho-laranja-roxo, nos remoinhos obsessivos, nas pinceladas às ondas  e na pureza das formas — ao serviço duma alma prisioneira da solidão e da miséria:"Sirvo-me das cores para expressar-me com mais força".






Desde Auvers-sur-Oise, onde está hospitalizado, escreve à mãe estas palavras: "...estes campos de trigo extensos como o mar, de um amarelo muito suave, um verde muito pálido, um lilás muito doce, tudo sob um céu azul com tons brancos, rosados e roxos! Sinto-me tranquilo, capaz de pintar tudo isto".
Sim, foi capaz de pintar tudo aquilo,  que já é nosso: os campos de trigo, e ele.
Sobre o Retrato de Eugene Boch, escreveu estas palavras, pouco antes de suicidar-se: "Detrás da cabeça, em lugar da parede, pintei o infinito"... 









7 comentarios:

  1. Mais uma vez, gostei! Pela maneira como te "soltas" e dizes só mesmo o que te vem de dentro...Também eu adoro Van Gogh! e "senti-o" aqui. É linda a descrição que ele faz dos campos à mãe nessa carta: são tão lindas as cores que quase nos comovemos a imaginá-las...
    Parabéns minha querida Amiga!
    o falcão

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  2. Belo texto! Creio que lhe interessará saber que existe um livro com as cartas de Van Gogh ao irmão Theo. É uma obra que ajuda muito a compreender o pintor. Deve haver tardução em castelhano; em português não sei.

    Manuel Poppe

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  3. Adoro estas pinturas de Van Gogh , transmitem-me paz.
    Parabéns pelo seu blogue. Cheguei aqui através do belíssimo blogue da MJ Falcão.
    Abraços

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  4. Agora sou eu que fico sensibilizada por Vossa Mercê gostar que eu a leia!...
    Assim, estamos sempre em contacto e comunicação: ora tu, ora eu...
    Fico feliz por teres "saído" a descoberto...
    Beijinhos

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  5. Obrigada, Paula.
    Oxalá que a vida, que é sempre da juventude, seja cada vez melhor,graças a pessoas como tu, preocupadas em pensar e fazer pensar os outros.
    Um beijo

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  6. São só duas palavras sentidas, Manuel Poppe.
    Obrigada por ter vindo até aqui.
    E a ti, querida Maria João, digo-te o que tu já sabes, estou a escrever porque me lês...

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  7. Já tinha lido, já. Mas não estava certa.
    Já li o livrinho das cartas de que fala Manuel Poppe. Chegaste a ler?

    Um beijinho e obrigada por de vez em quando me remeteres até post mais antigos e interessantes.

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